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Lulismo se consolidou em 2006 com conquista do "povão"
GOVERNO FEDERAL
Lulismo se consolidou em 2006 com conquista do "povão"
Da redação em 31/12/2010 08:11:25

A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2006, quando obteve mais de 58 milhões de votos no segundo turno e derrotou o tucano Geraldo Alckmin, não representou apenas uma vitória sobre o fantasma do mensalão, escândalo que atingiu o núcleo de seu governo e chegou a colocar em dúvida sua permanência no Palácio do Planalto.

Para o cientista político André Singer, professor da USP (Universidade de São Paulo), aquela disputa também foi o palco em que se configurou um importante realinhamento político do eleitorado brasileiro.

As camadas mais pobres, desorganizadas e sem meios de constituir representatividade própria, às quais Singer se refere como subproletariado, até então resistentes ao candidato surgido do movimento operário do ABC paulista, em 2006 aderiram pela primeira vez à sua plataforma de maneira substantiva.

A conquista dessa "fração de classe" rendeu a Lula, além da vitória nas urnas, uma nova base de apoio político, que em certo grau compensou o afastamento de grupos que tradicionalmente compunham os pilares de sustentação do PT, como a classe média intelectualizada e setores ligados ao funcionalismo público.

Este rearranjo levou a eleição de 2006 a um quadro de polarização social. No artigo Raízes sociais e ideológicas do lulismo, que publicou em novembro de 2009, Singer lembra que, no início de 2006, era possível notar, "no fundo da sociedade", uma crescente inclinação à favor da reeleição de Lula.

De acordo com o professor, até 2006, as classes mais pobres resistiam a votar em Lula porque viam nele, como representante da esquerda, uma potencial ameaça à ordem estabelecida.

Sob aspectos distintos, nas três eleições presidenciais em que foi derrotado, pode-se dizer que Lula esbarrou nesse obstáculo. Em 1989, Fernando Collor fez uso do argumento ideológico, denunciando a "ameaça do comunismo". Nos anos 90, em que perdeu duas vezes no primeiro turno para Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, havia um temor quanto ao retorno da inflação e da instabilidade monetária, questões acomodadas pelo Plano Real.

Se, como dizia o lema da campanha de Lula naquele ano, a "esperança venceu o medo" em 2002, a adesão das classes mais pobres só viria a se concretizar mais adiante, quando se dá início a um processo que, para estes grupos, gera a sensação de aumento do poder aquisitivo.

Alguns dos fatores que colaboram para a construção deste ambiente são a criação e ampliação do Bolsa Família, o aumento real do salário mínimo e a expansão do crédito.

Este tripé, somado a outros programas do governo, resulta em uma diminuição significativa da pobreza a partir de 2004, quando a economia volta a crescer e o emprego aumenta.

É neste ponto que o lulismo se concretiza como um projeto de redistribuição de renda, com o Estado à frente, mas sem qualquer perturbação da ordem.

Para Singer, a nova configuração ideológica que emerge do processo eleitoral de 2006, ao misturar elementos de esquerda e de direita, cria uma nova forma de politização.

Em entrevista ao R7, o professor da USP explica que "o lulismo não atende ao que se poderia esperar em termos de radicalização da luta de classes".

- Isso ele não faz, mas não é por isso que ele é despolitizador. Ele politiza, mas de outra forma. Acho que as pessoas que passaram a votar no presidente Lula em 2006 e que agora votaram na Dilma, que são de baixíssima renda, estão se politizando, percebem que a mudança na condição de vida delas decorreu de políticas públicas que foram tomadas a partir de uma certa decisão política. Informações do R7.



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