Fortuna de mais de R$ 100 milhões
Da redação em 31/05/2011 10:51:26
Carlos Carone, Jornal de Brasília
Uma fortuna superior a R$ 100 milhões movimentada no mercado financeiro pela empresa M Brasil Empreendimentos, Marketing Negócios LTDA serviu, em parte, para financiar a campanha eleitoral de uma série de políticos que participaram das últimas eleições. Políticos beneficiados receberam, juntos, R$ 600 mil para subsidiar suas campanhas. A empresa, supostamente de fachada, serviria para lavar dinheiro com cédulas de crédito imobiliário que foram colocadas à venda na Bovespa.
A conexão entre os políticos e a empresa – que, em tese ficaria sediada no Rio de Janeiro – é caracterizada pelos recibos de doação que constam na prestação de contas de cada um dos eleitos. A M Brasil promoveu, entre os anos de 2008 e 2010, uma enxurrada de debêntures no mercado financeiro paulista. A reportagem do Jornal de Brasília identificou pelo menos 30 cédulas de crédito imobiliário jogadas no mercado, todas com valores milionários.
A empresa começou a se movimentar na bolsa ainda em 2008, quando quatro cédulas foram colocadas à venda no mesmo dia, em 12 de dezembro daquele ano. Os valores variaram entre R$ 5 milhões e R$ 7 milhões. Os papéis teriam como base todos os aluguéis a serem recebidos pelas dezenas de imóveis que pertenceriam à M Brasil. As suspeitas aumentaram quando os sócios-proprietários da empresa foram encontrados. Ambos moram na Bahia, em bairros pobres da periferia. Um deles é sargento do Corpo de Bombeiros e recebe salário de apenas R$ 1,9 mil. O outro, que presta serviços para uma empresa distribuidora de gás, ganha cerca de R$ 800 por mês. Ambos foram ouvidos pela reportagem e serão alvo de matérias seguintes que fazem parte da série Lavanderia Carioca.
Mesmo com os proprietários de baixo poder aquisitivo – supostos laranjas no esquema –, a M Brasil continuou especulando no mercado financeiro e teve seu ápice em 2009, quando colocou, de forma pulverizada, 24 cédulas de crédito imobiliário no mercado. Juntos, os papéis somam mais de R$ 80 milhões. No ano passado, em 23 de fevereiro, a empresa colocou à venda apenas duas cédulas de crédito, que somam R$ 13 milhões.
Deste valor, R$ 600 mil foram usados para doação de campanha. A M Brasil teria capital social de R$ 38 milhões e estaria sediada na Avenida Rio Branco, 31, centro do Rio. No entanto, a empresa – que deveria funcionar no
18º andar do Edifício Julio Lima – não foi encontrada no local.
Sócios de outras duas empresas
A história envolvendo os dois supostos laranjas vai muito além da participação deles como sócios na empresa M Brasil. A reportagem apurou que outras duas empresas, que possuem o mesmo endereço –Avenida Rio Branco, no centro do Rio –, também estão no nome do sargento do Corpo de Bombeiros da Bahia, Marcelo Abdon Gondim, e do funcionário de uma distribuidora de gás, Leandro dos Santos Reis. Moradores de bairros humildes de Salvador, os dois figuram nos sistemas da Receita Federal como sócios-proprietários da TV Stúdio e do Sistema Brasileiro de Produção Independente (SBPI).
Todas as empresas estão com cadastro ativo na Receita. Entretanto, quando é feita uma pesquisa na Junta Comercial do Rio de Janeiro utilizando o Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ), os números constam como inválidos. O mesmo cadastro aponta que a TV Stúdio funcionaria em salas no 15º, 17º e 18º andares do Edifício Júlio Lima, onde também ficaria a M Brasil. Nenhuma das empresas foi localizada no endereço.
Na edição de domingo, o Jornal de Brasília publicou reportagem apontando a participação da M Brasil na doação de R$ 100 mil para a campanha do deputado distrital Chico Vigilante (PT). A doação é confirmada pelo recibo de pagamento, feito por meio de transferência eletrônica e que foi declarada na prestação de contas do deputado petista.
DEPUTADO FOI PROCURADO
No mesmo dia em que a matéria chegou às bancas, o distrital soltou uma nota à imprensa informando que jamais foi procurado pela reportagem para falar sobre o assunto. No entanto, na tarde da última sexta-feira, dois dias antes da publicação do texto, o jornalista Lenilton Costa – que presta serviços de assessoria para o deputado – esteve na redação do Jornal de Brasília e ficou a par de todos os detalhes que seriam publicados.
Ainda na mesma tarde, o assessor chegou a falar com o distrital utilizando o celular de um funcionário do Jornal de Brasília. Em um primeiro momento, Vigilante informou que não iria comentar o assunto. Já no fim do dia, a reportagem fez um novo contato e o assessor informou novamente que o distrital não comentaria o assunto. As informações são comprovadas pelas imagens do circuito interno de TV do jornal, que registrou o encontro entre o assessor de Chico Vigilante e a reportagem.
Ontem, informações de bastidores na Câmara Legislativa davam conta que o bloco de posição estaria se movimentando para discutir as denúncias envolvendo as doações de campanha feitas pela M Brasil. No início deste mês, o procurador regional eleitoral do Distrito Federal, Renato Brill de Góes, pediu a quebra do sigilo fiscal de 497 doadores de campanha de candidatos do DF: 146 pessoas jurídicas e 351 pessoas físicas. Todos teriam ultrapassado o limite para doações de campanha. Não se sabe, ainda, se a empresa M Brasil – que doou R$ 600 mil para campanhas nas últimas eleições – está no rol de investigadas pela Procuradoria Regional Eleitoral.
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